Queremos Mais é VELHAR

Queremos Mais é VELHAR

  • 2 de julho de 2017
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Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade
(Provérbios 5.18)

Ora, ora, ora… ENFIM SÓS, como começamos.

Hoje recebi um convite para estar na vigília de oração dos jovens de uma igreja. Confesso que fiquei tentado, mas lembrei-me de algo que não podia passar despercebido, minha filha está morando fora e meu filho foi para lá passar as férias.

Recusei aquele convite e citei que eu e a esposa iriamos VELHAR… Eureca, “descobri” a roda.

Ainda que esta palavra não exista em português, eu estou animado em fazer uso dela para caracterizar um contexto vivencial de muitos casais, e por sua raridade, cada vez mais interessantes.

Como num flash, relembrei os muitos momentos que passamos. Busquei nas minhas vivências, respeitar as singularidades restritas do nosso matrimônio. Mas, ao observar alguns relacionamentos, consegui notar muitas peculiaridades que envolvem todos os relacionamentos que estão aptos a desfrutar do VELHAR.

Então vejamos algumas características destes casais:

1. O primeiro deles é justamente o fato de serem construídos, na maioria das vezes, na juventude.

Este período é inquestionavelmente o momento do despertar das paixões e do amor. Ajudados pela emergente libido, torna-se muito comum que relacionamentos sejam construídos neste tempo, fazendo com que os mesmos sejam aptos ao VELHAR.

Talvez o leitor diga: Nada a ver. Muitos relacionamentos não vingam nesta idade.

É verdade, contudo, vale ressaltar, que os que começaram neste período, terão maior tempo de construção do que os que fogem a este padrão (numa linguagem militar, antiguidade é posto), e quanto mais nova é esta construção, maior a probabilidade de VELHAR com menos idade.

Na prática, os casais que temos como padrão do VELHAR, formou-se em momentos de pouca troca de casais, e construções muito dolorosas, num contexto histórico já ultrapassado em nossos dias, mas que são referências inquestionáveis de relações duradouras.

2. Outro ponto que une os casais aptos ao VELHAR são os sonhos de vida comum.

É incrível como jovens que se unem afetivamente, constroem pensamentos comuns, que vão além da união simples. Eles constroem sonhos que lhes determinam a escolha de profissões, locais de residência, metas das mais variadas, com métricas e prazos para serem cumpridos.

Os sonhos são feitos, com cara de realidade. O desejo da “fusão dos corpos” e suas consequências geram preocupações materiais, no tempo e no espaço.

Filhos que não existem e nem se sabe se existirão, passam a ser desejados. Sonha-se com crianças correndo, chamados por um nome predefinido no tempo de namoro. Vislumbra-se o inimaginável formato dos seus rostos, cabelos, pele, gostos e sexo.

Tudo é muito mágico, e tomam horas, dias, semanas, meses e às vezes anos.

3. Outro poder construtor dos relacionamentos propícios ao VELHAR é a força que possuem de enfrentar oposições.

Por incrível que pareça, as novelas, romances, etc., sempre enfatizam este poder destes relacionamentos que levam as pessoas ao VELHAR.

Creio que esta força contrária às oposições, encontra respaldo na construção de uma maturidade e do que se realmente quer da vida.

Esta força resistente, afrontadora e às vezes desobediente, faz parte de uma autoafirmação, que vez por outra gera desconfortos, e pode levar até mesmo a erros que lesam a dignidade pessoal e de inocentes (as crianças muitas vezes geradas impensadamente).

Porém, esta dínamis, que de fato não é individualizada e sim uma coletividade primária (dois enamorados), tem propriedades internas e externas.

É muito comum vermos casais em formação, em seus atritos, guerras sem causa, desavenças sem explicação. Na realidade conflitos internos de interferência no eu pela presença conflitante do outro que amamos.

Deste salto dialético, surgem novas pessoas que são alteradas um pelo outro, num advento doloroso, cheios de contraditórios e ao mesmo tempo complementares. Novos seres sendo formados para a construção de uma nova família, grupo coletivo que possui características tão peculiares às origens dos seus formadores, a saber, as antigas famílias.

Este relacionamento ora conflitante e ora tão comparsa, gera desconfianças e desprazeres em pais, irmãos, amigos e não poucas vezes na sociedade em sua expressão maior, como bairro, escola e cidade. Levantar-se contra esta nova formação, gera dores em partes envolvidas, e quanto mais reação proibitiva ou retaliativa existir, mais se tornam as partes resignadas em seus propósitos, tão incompreendidas pelos que envoltos pensem estar naquilo que não cabe mais que dois.

Assim, passam-se os anos, muitos dos sonhos se tornam realidade, vidas passam assoladas por obstáculos dos mais diversos, como tentações oposicionistas, dificuldades financeiras, a maturidade e suas devidas responsabilidades, vida estressante de seres responsáveis, com seus ideais e as dádivas de Deus: os infantes, adolescentes, jovens, etc., e quando damos por si, os anos se passaram, a velhice já chegou ou bate às portas.

Olha-se para trás, e como num jogo cheio de fases, identifica-se que muitas delas já foram vencidas, podemos até comparar o nosso estágio no jogo e perceber que estamos com fases bloqueadas ainda, mas outras tantas foram abertas, e a pontuação já foi creditada em nosso upgrade, nossa evolução no jogo, ou seja: Passamos de fase.

Não se tem mais bebês, já estão grandes, preparando-se para voar ou já voando e a síndrome do ninho vazio e o gosto excessivo pelo campeonato estadual do esporte favorito pode inundar o lar.

Aqui entra nossa tese, pois não é o fim, mas a nova fase do jogo que se abre, para ser jogada e desfrutada.

Chamo esta fase vivencial, de fase do VELHAR, num preparar-se para gozar dos privilégios da graça de Deus de permanecer junto com alguém, mesmo que tudo ou grande parte pelo menos das circunstâncias nos levem a romper, desistir, renegar esta longa união.

Nestes momentos o que há a princípio, é um desejo de passar a limpo o que se perdeu, a abnegação, as escolhas, e sentir uma dúvida de que talvez fosse melhor ter feito outra opção. Metanoia presente e tão incômoda.

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Muitos, assim enveredados, partem para uma reconstrução muito complexa, onde dificilmente poderá ter o êxito que as fases anteriores proporcionaram. Não será o novo que fará sentido, ou poderá resgatar a falsa impressão de tempo perdido.

Não é recomeçando uma nova partida que haverá realização, mas adentrando juntos, nesta nova fase, a fase do VELHAR, repleta de benefícios vindouros da premiação das novas jogadas, como sublimação em filhos, netos e bisnetos.

Mas isso é pouco comparado com o senso de dever cumprido, de ter sonhado e realizado sonhos, de ter tornado real, aquilo que parecia coisa de criança e de imaturo, desmiolado e de gente que anda no mundo da lua.

Ora, o VELHAR é tempo de desfrutar de conquistas que não são alcançadas por qualquer um.

VELHAR é reconhecer que há algo de divino em dar desejos a indivíduos desmiolados, para sonharem sonhos tão incompreendidos, alterar personalidades, construir ideias e dar um desfecho que mesmo não sendo de clássico infantil, é digno de respeito, reconhecimento e louros, verdadeiro sucesso.

Bom, bora VELHAR, velhinhos?

Pois antes tarde do que nunca, e por falta de opção, vida e graça, muitos jamais poderão adentrar nesta fase do jogo, e quem nela está, deve dizer com paz de espírito, gozo e gratidão a Deus, num coral de dois:

Queremos Mais é VELHAR!

 


Rev. Luciano Freire de Santana

É pastor reformado, Bacharel em Teologia,
Analista de Sistemas e Técnico em Eletroeletrônica
74| 9.9937-4069 (WhatsApp)

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